Obesidade e cultura: qual país é mais atingido no mundo?

Descubra qual país tem maior índice de obesidade no mundo, como a cultura e a história moldaram o peso corporal e o que a genealogia revela sobre nossos ancestrais.

Por Mila Rolim ·

Obesidade e cultura: qual país é mais atingido no mundo?

A obesidade e cultura estão intrinsecamente ligadas, e atualmente o pequeno país insular de Nauru, situado na Micronésia, lidera o ranking mundial com taxas de obesidade que superam 60% da população adulta. Esse fenômeno demográfico contemporâneo resulta de transições alimentares abruptas, abandono de subsistências ancestrais e imposições coloniais do século XX. O excesso de peso nem sempre foi um padrão epidemiológico global e sua percepção histórica variava conforme a abundância, a sobrevivência e os símbolos culturais de cada linhagem.

Qual país é o mais atingido pela obesidade no mundo contemporâneo?

Nauru, um Estado insular localizado na região da Micronésia, na Oceania, ocupa o primeiro lugar nos índices globais de obesidade da Organização Mundial da Saúde (OMS), com mais de 61% de seus cidadãos adultos considerados clinicamente obesos em 2024. Logo atrás de Nauru, nações vizinhas do Pacífico Sul como as Ilhas Cook, Palau, Tuvalu e Samoa apresentam índices alarmantes que oscilam entre 50% e 60% da população adulta.

Essa realidade nas ilhas do Pacífico Sul decorre de uma mudança drástica ocorrida a partir de 1968, ano da independência de Nauru, impulsionada pela mineração intensa de fosfato que gerou enriquecimento súbito e devastou as áreas cultiváveis locais. A população de Nauru trocou a pesca artesanal de peixes frescos e o plantio de frutos como o fruto-pão e o coco por alimentos ultraprocessados, carne enlatada e carboidratos refinados importados da Austrália.

Entre as grandes potências geopolíticas, os Estados Unidos da América lideram entre os membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), registrando cerca de 42% de adultos com obesidade em relatórios consolidados em 2023. Essa prevalência norte-americana decorre do avanço industrial pós-Segunda Guerra Mundial, da proliferação de redes de fast-food e de modelos urbanos fundamentados na locomoção exclusiva por veículos automotores.

Sempre foi assim? A evolução da gordura corporal na história humana

A obesidade nunca foi uma regra biológica generalizada na história humana, permanecendo durante séculos como uma condição rara, restrita a pouquíssimos indivíduos pertencentes às elites abastadas. Durante o Paleolítico Superior, há cerca de 30 mil anos, estatuetas como a Vênus de Willendorf, esculpida em calcário e descoberta na Áustria em 1908, mostravam formas femininas corpulentas que simbolizavam fecundidade e abundância mágica, não um padrão corporal comum da população caçadora-coletora.

Na Europa Medieval do século XIII, monarcas como o rei D. Afonso II de Portugal, conhecido historicamente pelo epíteto de "O Gordo", enfrentavam dificuldades de locomoção em virtude de sua compleição física avantajada, gerada pelo consumo diário e farto de carnes nobres e caças. Enquanto monarcas consumiam banquetes diários com alto teor calórico, mais de 90% da população europeia camponesa vivia sob dietas de subsistência baseadas em pão preto, aveia, leguminosas e vegetais sazonais, enfrentando ciclos severos de fomes coletivas causadas por quebras de safra.

O conceito biológico que explica essa transformação é a chamada hipótese do "genótipo econômico", formulada pelo geneticista James Neel na Universidade de Michigan em 1962. A hipótese do genótipo econômico define que populações humanas ancestrais foram selecionadas geneticamente para armazenar gordura com máxima eficiência energética durante períodos de fartura, garantindo a sobrevida em períodos frequentes de fome extrema. No mundo contemporâneo, marcado pela oferta ininterrupta de alimentos calóricos baratos, esse mecanismo milenar de defesa genética transformou-se em gatilho patológico generalizado.

A visão cultural do corpo: do prestígio da fartura ao estigma social

A percepção cultural sobre a robustez física alterou-se profundamente entre o século XVI e o século XXI, migrando da celebração do status socioeconômico para o controle médico e estético rigoroso. Durante a Era Barroca flamenga do século XVII, o pintor Peter Paul Rubens retratava nobres e deuses mitológicos em Flandres com corpos volumosos e dobras evidentes de pele, estética que refletia a prosperidade financeira da burguesia mercantil e a imunidade material diante das epidemias da época.

Nas tradições rurais do Brasil colonial e imperial do século XIX, homens e mulheres de compleição física robusta eram vistos como saudáveis, resistentes às mazelas da febre amarela e aptos para a procriação e o trabalho na lavoura paulista e mineira. Ter reservas corporais espelhava acesso constante à carne de porco salgada, à farinha de mandioca e ao açúcar dos engenhos da Capitania de São Vicente e do Recôncavo Baiano, bens inacessíveis aos estratos mais marginalizados.

A inversão dessa leitura estética e médica consolidou-se na metade do século XX com a ampla disseminação dos seguros de vida e da escala de Índice de Massa Corporal (IMC), criada pelo matemático belga Adolphe Quetelet no século XIX e adotada pela OMS em 1995. A magreza passou a ser associada ao controle pessoal, ao acesso a academias e a dietas balanceadas de alto custo financeiro, transferindo a obesidade para as populações com menor poder aquisitivo.

Como os padrões alimentares se propagam pelas gerações familiares?

Os hábitos à mesa e a relação com o alimento são transmitidos como herança cultural de pais para filhos por meio da memória afetiva e dos costumes domésticos repetidos ao longo dos anos. A psicogenealogia define a herança transgeracional como a repetição inconsciente de comportamentos, traumas e sistemas de crença familiares através de duas ou mais gerações consecutivas. Em famílias de imigrantes italianos chegados a São Paulo a partir de 1880, o ato de servir pratos transbordantes representava a vitória psicológica definitiva sobre a fome e a penúria deixadas nas aldeias do Vêneto e da Calábria.

Em linhagens do interior paulista, como as fixadas em Itapetininga, Sorocaba e Tatuí durante os ciclos tropeiros, o fornecimento de refeições ricas em gordura animal e feijão gordo representava segurança e acolhimento familiar. Essa memória de privação passada muitas vezes programa os descendentes atuais a encarar o prato vazio com desconforto, forçando a ingestão excessiva mesmo sem demanda física proporcional.

Fontes primárias revelam que a relação familiar com a nutrição pode ser rastreada por meio de diferentes registros documentais históricos e paroquiais:

  • Inventários post-mortem: Relação de bens deixados pelo falecido que lista panelas de ferro, tachos de cobre, tulhas de milho e quantidade de animais de abate criados no sítio familiar.
  • Testamentos antigos: Manuscritos cartoriais que estipulavam o sustento de viúvas e filhas com sacas de feijão, varas de porcos e medidas de farinha anuais.
  • Cadernos de receitas manuscritos: Registros domésticos dos séculos XIX e XX preservados em baús familiares, demonstrando o uso excessivo de banha e açúcar refinado.
  • Certidões de óbito do registro civil: Assentos lavrados em cartórios a partir de 1889 que apontavam termos médicos antigos como apoplexia, congestão e hidropisia, frequentemente associados a doenças cardiovasculares e diabetes.

Dicas práticas para mapear a saúde dos antepassados na sua genealogia

O resgate da história familiar ganha profundidade científica quando o pesquisador investiga as causas de mortalidade e os traços corporais presentes na documentação dos seus ascendentes. A genealogia médica baseia-se na compilação sistemática de atestados de óbito, cartas de alforria, certidões militares e fotografias para traçar um mapa fenotípico da árvore genealógica familiar ao longo de três ou quatro gerações.

Para construir um histórico confiável sobre saúde e biotipo familiar, o pesquisador deve seguir um procedimento metodológico estruturado:

  1. Localize certidões de óbito em inteiro teor: Solicite certidões completas em cartórios de Registro Civil das Pessoas Naturais ou consulte digitalizações no FamilySearch para identificar a causa médica expressa da morte.
  2. Decifre diagnósticos arcaicos: Identifique termos históricos como "moléstia do coração", "paralisia cerebral", "derrame cerebral" ou "açúcar no sangue", comuns em atestados lavrados no Brasil entre 1889 e 1940.
  3. Examine prontuários de imigração e passaportes: Registros das Hospedarias de Imigrantes de São Paulo e do Rio de Janeiro detalham peso, altura, sinais particulares e compleição física geral dos passageiros.
  4. Analise acervos fotográficos de época: Estude retratos familiares tirados em estúdios fotográficos no final do século XIX, prestando atenção à conformação corporal de bisavós e tetravós.
  5. Construa um genograma de saúde: Desenhe o genograma de sua família anotando a incidência de infartos precoces, diabetes tipo 2 e hipertensão arterial associados aos hábitos de vida documentados.

O que o passado dos nossos antepassados nos ensina sobre o futuro?

A análise histórica da obesidade nos ensina que a biologia humana é fruto de adaptações rigorosas para superar a escassez, e não para lidar com o excesso contínuo de calorias. O que salvou a vida de nossos antepassados durante secas no sertão da Paraíba ou invernos rigorosos em Portugal tornou-se um risco evidente nas cidades contemporâneas saturadas de sedentarismo e comidas industrializadas.

Compreender que o peso corporal e as preferências gastronômicas estão ancorados em tradições, migrações e heranças genéticas permite libertar as novas gerações de culpas desnecessárias e estigmas nocivos. Conhecer a história da própria família, resgatar receitas que valorizem ingredientes frescos dos ancestrais rurais e mapear as tendências genéticas do sangue constituem os passos fundamentais para honrar a memória dos que vieram antes, garantindo vida longa e saúde para os que virão depois.

Tags: Ancestralidade, DNA, padrões familiares, história, herança cultural, psicogenealogia, genograma