Imigração Marroquina no Brasil e Genealogia: Guia Completo

Descubra a história da imigração marroquina no Brasil, as rotas genealógicas para rastrear antepassados do Marrocos e as regras de cidadania brasileira.

Por Mila Rolim ·

Imigração Marroquina no Brasil e Genealogia: Guia Completo

A imigração de cidadãos do Marrocos para o Brasil teve início no século XIX, impulsionada pelo ciclo da borracha na Amazônia e pela busca por oportunidades comerciais. Para pesquisar antepassados marroquinos e regularizar a nacionalidade de descendentes ou imigrantes, é essencial cruzar arquivos portuários brasileiros, registros consulares e a legislação vigente da Lei de Migração do Brasil.

Como aconteceu a imigração de marroquinos para o Brasil?

A imigração marroquina para o território brasileiro começou de forma expressiva por volta de 1810, intensificando-se entre os anos de 1840 e 1910 durante o auge do ciclo da borracha. Grande parte desse fluxo era composta por famílias de judeus sefarditas originárias de cidades como Tânger, Tetuão, Rabat, Fez e Mogador (atual Essaouira), que buscavam novas oportunidades econômicas e estabilidade social.

Esses imigrantes desembarcavam principalmente nos portos de Belém, no Pará, e Manaus, no Amazonas, espalhando-se posteriormente pelos rios amazônicos e fundando entrepostos comerciais no interior do Acre e do Ceará. Além do grupo judaico-marroquino na Região Norte, fluxos menores de marroquinos árabes e berberes chegaram ao longo do século XX, estabelecendo-se nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro com atuação voltada ao comércio varejista e à indústria.

Os principais marcos históricos e locais de fixação dessa comunidade incluem:

  • Belém do Pará: Fundação da Sinagoga Shaar Hashamaim em 1824 e do Cemitério Israelita de Belém em 1842.
  • Manaus e Tefé (Amazonas): Criação de casas de comércio e firmas de exportação de látex nas décadas de 1870 a 1900.
  • Porto de Santos e São Paulo: Desembarques urbanos registrados a partir de meados do século XX no bairro do Brás.

Onde encontrar documentos de antepassados marroquinos no Brasil?

Documentos de imigrantes marroquinos no Brasil são identificados a partir de listas de bordo, prontuários de estrangeiros e registros das comunidades religiosas onde as famílias se estabeleceram. A busca genealógica deve começar pelo Brasil para coletar certidões de casamento e óbito que indiquem a cidade exata de nascimento no Marrocos.

O Arquivo Nacional, localizado no Rio de Janeiro, possui acervos fundamentais como as Listas de Vapores dos portos de Belém e do Rio de Janeiro, além do acervo de Relações de Passageiros e Prontuários da Polícia de Estrangeiros. Nos estados do Norte, o Arquivo Público do Estado do Pará (APEP) em Belém e o Arquivo Público do Estado do Amazonas (APA) em Manaus guardam requerimentos de terras, licenças de navegação fluvial e registros de naturalizações do século XIX.

Para obter registros civis e religiosos marroquinos, os principais locais de consulta são:

  1. Registros de Comunidades Religiosas: Livros de atas e ketubot (contratos matrimoniais) preservados pelo Comitê Israelita do Amazonas (CIAM) e pela Sociedade Israelita do Maranhão.
  2. Direction des Archives Nationales du Maroc (Rabat): Arquivo governamental marroquino para registros administrativos e decretos da era colonial e do Protetorado.
  3. Arquivos Diplomáticos de Nantes (França) e Arquivos de Madrid (Espanha): Acervos essenciais caso o antepassado tenha vivido na zona do Protetorado Francês ou Espanhol até 1956.

Existe tratado de dupla cidadania entre o Brasil e o Marrocos?

Não existe tratado bilateral específico de dupla cidadania entre o Brasil e o Reino do Marrocos. A obtenção e a manutenção de nacionalidade entre ambos os países dependem unicamente das legislações internas soberanas de cada Estado, permitindo que cidadãos possuam os dois passaportes sem a exigência de renúncia prévia.

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, com a redação dada pela Emenda Constitucional nº 131 de 2023, estabelece que o brasileiro não perde a sua nacionalidade originária ao adquirir outra nacionalidade estrangeira, salvo em caso de pedido expresso de renúncia perante a autoridade competente. Por sua vez, o Código de Nacionalidade Marroquino (Dahir nº 1-58-250 de 1958, modificado em 2007) permite a posse de outra cidadania sem perda automática da condição de marroquino.

"A ausência de tratado específico não impede o acúmulo de nacionalidades: marroquinos podem se naturalizar brasileiros e brasileiros podem requerer a cidadania marroquina caso preencham os requisitos legais de cada jurisdição."

Como um cidadão marroquino pode se tornar cidadão brasileiro?

Naturalização brasileira é o ato soberano pelo qual o Estado confere a nacionalidade brasileira a um estrangeiro que cumpra as exigências da Lei de Migração (Lei Federal nº 13.445 de 2017). Para um cidadão nascido no Marrocos obter a nacionalidade brasileira ordinária, o processo é instruído pela Polícia Federal e deferido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O processo administrativo exige a comprovação de residência legal, estabilidade econômica e domínio da língua portuguesa. O tempo padrão de residência contínua pode ser reduzido dependendo do vínculo familiar do requerente com o Brasil.

Os critérios essenciais para a concessão da naturalização ordinária incluem:

  • Tempo de residência: Residência contínua no território nacional por no mínimo 4 anos (prazo reduzido para 1 ano caso tenha cônjuge ou filho brasileiro).
  • Capacidade civil: Ter capacidade civil segundo a lei brasileira e não possuir condenação penal no Brasil ou no exterior por crime doloso.
  • Comunicação em língua portuguesa: Apresentação do Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras) ou comprovação de escolaridade no Brasil.
  • Capacidade de subsistência: Comprovação de renda fixa ou meios de subsistência próprios no país.

Dicas práticas para superar os desafios da pesquisa genealógica marroquina

A pesquisa de antepassados marroquinos apresenta peculiaridades linguísticas devido ao uso simultâneo de árabe, hebraico, francês e espanhol na documentação oficial. Ao transcrever nomes nos cartórios brasileiros, escrivães frequentemente adaptavam a ortografia marroquina para a fonética da língua portuguesa, gerando distorções em certidões.

Sobrenomes frequentes da imigração marroquina no Brasil, como Benchimol, Serruya, Gabbay, Azulay, Athias, Bensadon, Ammar, Cherkaoui e El Mansouri, sofreram variações drásticas nos portos amazônicos. Para localizar os registros corretos, o genealogista deve buscar as variantes fonéticas e pesquisar os nomes de batismo em documentos de naturalização conservados nos cartórios de notas e registros de imóveis.

Passo a passo para estruturar a busca de registros familiares marroquinos:

  1. Reúna certidões brasileiras de inteiro teor: Localize certidões de óbito e casamento dos imigrantes em cartórios de Belém, Manaus, São Luís ou Fortaleza para confirmar o nome dos genitores.
  2. Consulte bancos de dados abertos: Pesquise nos catálogos digitalizados da plataforma FamilySearch e do Museu da Imigração do Estado de São Paulo.
  3. Solicite buscas consulares: Contate a Embaixada do Reino do Marrocos em Brasília ou o Consulado Geral para obter certidões de nascimento preservadas no registro civil marroquino (Halat Al-Madaniyah).

Tags: imigração, pesquisa genealógica, Cidadania, Amazônia, Documentos Antigos, FamilySearch, Marrocos