Imigração Argentina no Brasil: Genealogia e Cidadania

Descubra como rastrear antepassados argentinos no Brasil, utilizar os acordos do Mercosul e entender as regras de residência e cidadania brasileira.

Por Mila Rolim ·

Imigração Argentina no Brasil: Genealogia e Cidadania

A imigração argentina no Brasil consolidou laços profundos entre as duas maiores nações da América do Sul ao longo dos séculos XIX, XX e XXI. Diferente dos fluxos migratórios em massa vindos da Europa, o movimento de cidadãos da Argentina para o território brasileiro ocorreu majoritariamente por razões econômicas, políticas e acadêmicas, integrando-se rapidamente à sociedade brasileira.

Como funcionou a imigração argentina para o Brasil ao longo da história?

O fluxo de imigrantes da República Argentina para a República Federativa do Brasil desenvolveu-se em ondas distintas, com forte impacto nas regiões Sul e Sudeste. No século XIX, as relações fronteiriças no estado do Rio Grande do Sul estabeleceram casamentos interfronteiriços e trocas comerciais contínuas entre fazendeiros, militares e comerciantes gaúchos e platinos.

Durante o século XX, eventos políticos significativos impulsionaram novas levas migratórias. Nas décadas de 1960 e 1970, durante a ditadura militar argentina instaurada pela Revolução Argentina e pelo Processo de Reorganização Nacional, dezenas de intelectuais, artistas, médicos e cientistas buscaram refúgio no Brasil, estabelecendo-se em centros urbanos como a cidade de São Paulo e a cidade do Rio de Janeiro.

Na virada para o século XXI, especialmente durante a crise econômica argentina de 2001, um novo contingente de profissionais qualificados e empreendedores transferiu residência para cidades turísticas do litoral de Santa Catarina, como Florianópolis e Balneário Camboriú, além de capitais como Curitiba, Porto Alegre e Brasília.

Quais são os principais tratados entre Brasil e Argentina para migração?

Os cidadãos da República Argentina contam com facilidades migratórias históricas e contemporâneas devido aos acordos diplomáticos bilaterais e multilaterais no âmbito do Mercado Comum do Sul, conhecido como Mercosul.

O instrumento jurídico mais importante em vigor é o Acordo de Residência do Mercosul, promulgado no Brasil por meio do Decreto nº 6.975 de 7 de outubro de 2009. Este tratado internacional garante regras simplificadas de permanência para argentinos em solo brasileiro:

  • Residência Temporária de 2 anos: O cidadão argentino pode solicitar autorização de residência prévia diretamente na Polícia Federal do Brasil sem a exigência de vínculo de trabalho ou investimentos.
  • Conversão em Residência por Prazo Indeterminado: Antes do término do biênio temporário, o requerente pode converter o status migratório para residência permanente se comprovar meios lícitos de subsistência e ausência de antecedentes criminais.
  • Dispensa de Visto Prévio: O ingresso em território brasileiro independe de visto consular, sendo necessária apenas a apresentação do Documento Nacional de Identidad (DNI) ou passaporte argentino válido.

Como um cidadão argentino pode obter a cidadania brasileira?

A concessão da nacionalidade brasileira por naturalização a cidadãos originários da Argentina segue critérios específicos estabelecidos pela Constituição Federal do Brasil de 1988 e pela Lei de Migração nº 13.445 de 24 de maio de 2017.

Existem modalidades jurídicas fundamentais para a aquisição da cidadania:

  • Naturalização Ordinária (Artigo 65 da Lei nº 13.445/2017): Exige residência por prazo indeterminado no território nacional por no mínimo quatro anos, capacidade de comunicação em língua portuguesa e inexistência de condenação penal. Esse prazo de quatro anos é reduzido para apenas um ano caso o solicitante tenha cônjuge, companheiro ou filho brasileiro.
  • Naturalização Extraordinária (Artigo 12, II, b da Constituição Federal): Concedida aos estrangeiros residentes no Brasil há mais de quinze anos ininterruptos, sem condenação penal, desde que requeiram a nacionalidade.
A Argentina e o Brasil admitem a dupla nacionalidade originária e adquirida. O cidadão argentino que obtém a naturalização brasileira não perde a sua cidadania argentina de nascimento, mantendo plenos direitos civis em ambos os Estados soberanos.

Onde encontrar registros de antepassados argentinos no Brasil?

A pesquisa genealógica de imigrantes argentinos no Brasil requer a busca de documentos de entrada, permanência e naturalização distribuídos em arquivos públicos e plataformas digitais especializadas.

Os principais acervos para localização de certidões e fichas consulares incluem:

  • Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN): Localizado na cidade do Rio de Janeiro, custódia cartões de imigração, fichas de registro de estrangeiros emitidas pela Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras a partir de 1938 e processos de naturalização deferidos pelo Ministério da Justiça.
  • Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP): Reúne listas de bordo e livros de matrícula da antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás, úteis para localizar argentinos que desembarcaram pelo Porto de Santos entre 1888 e 1978.
  • FamilySearch: Mantém digitalizados assentos de batismo, casamentos religiosos e registros civis de municípios de fronteira, como Uruguaiana e São Borja, no Rio Grande do Sul, além de cartões consulares brasileiros emitidos em Buenos Aires.
  • Acervo Histórico do Ministério das Relações Exteriores: No Palácio Itamaraty, reúne correspondências diplomáticas e pedidos de passaporte emitidos por consulados brasileiros na Argentina desde o século XIX.

Como pesquisar documentos nos arquivos públicos da Argentina?

Para construir a árvore genealógica no país de origem, o pesquisador precisa acessar os repositórios documentais argentinos de acordo com o período da imigração.

O Archivo General de la Nación (AGN), situado em Buenos Aires, concentra os censos populacionais nacionais de 1869 e 1895 (Primer y Segundo Censo Nacional de la República Argentina), onde constam dados nominais, profissão, idade e composição familiar dos residentes.

Os registros civis argentinos (Registro del Estado Civil y Capacidad de las Personas) funcionam de forma descentralizada por províncias desde o ano de 1886. Registros anteriores a essa data devem ser buscados nos livros paroquiais das arquidioceses e dioceses católicas locais, muitos dos quais disponíveis digitalmente através de convênios de microfilmes históricos.

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