Como era a viagem da Polônia até o Brasil no século XIX

Descubra como era a viagem da Polônia até o Brasil: a saída da aldeia, a travessia de navio, as hospedarias e os primeiros passos na colônia.

Por Mila Rolim ·

Como era a viagem da Polônia até o Brasil no século XIX

A viagem da Polônia até o Brasil entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX durava entre quatro e oito semanas, combinando longos trajetos terrestres de trem com uma exaustiva travessia marítima pelo Oceano Atlântico. Os camponeses poloneses partiam de regiões como a Galícia, a Silésia e a Pomerânia em busca de terras cultiváveis e liberdade social, enfrentando condições precárias de transporte até chegarem aos portos brasileiros de Santos, Paranaguá ou Rio de Janeiro. Ao desembarcar, esses imigrantes ainda passavam por hospedarias de triagem antes de estabelecerem seus lotes pioneiros nas colônias agrícolas do Sul e do Sudeste do Brasil.

A saída da aldeia natal e o adeus à Polônia dividida

No período entre 1870 e 1914, a Polônia não existia como um Estado autônomo soberano nos mapas europeus, pois seu território permanecia partilhado entre os Impérios Russo, Austro-Húngaro e Alemão. A decisão de deixar a aldeia natal (conhecida como wieś) decorria da extrema escassez de terras produtivas, da cobrança de tributos elevados, da superpopulação rural e das convocações forçadas para o serviço militar czarista ou imperial.

Famílias inteiras vendiam suas pequenas porções de terra, carroças, ferramentas de ferro e animais para custear as taxas de emigração, a emissão de passaportes e os bilhetes de viagem. Nas aldeias da Galícia austríaca e do Reino da Polônia sob tutela russa, a partida dos parentes era marcada por celebrações religiosas solenes na igreja paroquial local, onde o sacerdote conferia bênçãos finais e os vizinhos se reuniam em clima de luto civil, cientes de que a separação transatlântica costumava ser irreversível.

O primeiro trecho do deslocamento era percorrido a pé ou em carroças rústicas tracionadas por cavalos, cobrindo dezenas de quilômetros por estradas de terra batida até a estação ferroviária mais próxima. Bagagens pessoais eram limitadas a baús de madeira (kufry), esteiras de palha, vestimentas tradicionais, utensílios de costura, certidões paroquiais de batismo e casamentos, além de pequenas relíquias devocionais, como imagens de Nossa Senhora de Częstochowa.

O trajeto ferroviário até os grandes portos de embarque europeus

O deslocamento de trem através da Europa Central levava os colonos poloneses das estações regionais até as grandes cidades portuárias do Mar do Norte, do Mar Báltico e do Mar Adriático. As composições ferroviárias transportavam os passageiros em vagões de terceira ou quarta classe, caracterizados por assentos de madeira dura e pouca ventilação, cruzando fronteiras burocráticas vigiadas.

Os principais portos de embarque utilizados pela emigração polonesa com destino à América do Sul incluíam:

  • Bremen e Bremerhaven (Alemanha): Principal rota de saída operada pela companhia de navegação Norddeutscher Lloyd.
  • Hamburgo (Alemanha): Porto onde funcionavam os alojamentos da companhia Hamburg-Amerikanische Packetfahrt-Actien-Gesellschaft (HAPAG).
  • Antuérpia (Bélgica) e Roterdã (Países Baixos): Centros intermediários de conexão para embarcações transatlânticas a vapor.
  • Trieste e Gênova (Itália): Rotas comuns para famílias que deixavam as regiões do sul da Galícia e da Europa Central.

Ao chegarem aos complexos portuários germânicos, os viajantes eram submetidos a exames de sanidade, desinfecção de bagagens e registro de vistos consulares. Em cidades como Hamburgo e Bremerhaven, os emigrantes aguardavam a partida durante dias em alojamentos de quarentena, onde os nomes familiares eram anotados nas listas de passageiros (Passagierlisten), documentos fundamentais para a pesquisa genealógica moderna.

A travessia marítima pelo Oceano Atlântico em navios a vapor

A travessia do Oceano Atlântico em navios a vapor durava entre vinte e trinta e cinco dias, dependendo da rota marítima, das condições climáticas e da tecnologia de propulsão da embarcação. Os imigrantes viajavam quase exclusivamente nos porões e tombadilhos inferiores da terceira classe (conhecida como classe de entreponte), onde centenas de beliches duplos ou triplos eram dispostos em espaços coletivos sem privacidade.

A rotina nos conveses inferiores era marcada pelo enjoo constante, pela circulação restrita de ar puro e pelo racionamento de água potável. A alimentação diária fornecida pelas tripulações consistia em biscoitos secos de bordo, sopas ralas de legumes com toucinho, batatas cozidas e arenque salgado. Apesar das adversidades sanitárias, os passageiros mantinham o convívio comunitário por meio da recitação diária do terço católico, do canto de hinos religiosos poloneses e da troca de informações sobre a vida agrícola na América do Sul.

"A chegada à linha do Equador trazia um calor sufocante aos porões superlotados, forçando os capitães a permitirem que famílias subissem ao convés aberto para respirar a brisa marinha durante a noite."

Sururtos de sarampo, cólera e febre tifóide ocorriam ocasionalmente a bordo, exigindo o isolamento de enfermos na enfermaria do navio. Os falecimentos em alto-mar demandavam sepultamentos náuticos imediatos, com o corpo envolvido em lonas lastreadas por pesos de ferro, fato que era consignado pelo escrivão de bordo no diário de navegação oficial da embarcação.

A chegada aos portos brasileiros e o acolhimento nas hospedarias

O primeiro contato visual com o território brasileiro ocorria na entrada da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, no Porto de Santos, no Estado de São Paulo, ou no Porto de Paranaguá, no Estado do Paraná. Após a atracação do navio a vapor, inspetores da Inspetoria de Terras e Colonização e médicos da autoridade sanitária portuária subiam a bordo para inspecionar a tripulação e conceder o desembarque formal dos passageiros.

Os colonos eram então transferidos para grandes complexos de acolhimento governamentais mantidos pelo governo federal e pelos governos provinciais ou estaduais. No Estado de São Paulo, o destino inicial era a Hospedaria de Imigrantes do Brás; no Estado do Rio de Janeiro, a Hospedaria da Ilha das Flores; e no Estado do Paraná, os barracões de quarentena da Ilha das Cobras e da cidade de Paranaguá.

Nesses estabelecimentos públicos de triagem, ocorriam os seguintes procedimentos administrativos:

  1. Registro nominal nos livros de matrícula da hospedaria, com anotação de idade, religião, profissão e aldeia de proveniência.
  2. Realização de triagem médica geral, aplicação de vacinas e fornecimento de refeições quentes à base de arroz, feijão e carne-seca.
  3. Assinatura de contratos agrícolas de assentamento e emissão de guias de transporte ferroviário ou fluvial para as colônias oficiais.

O deslocamento rumo ao interior e a instalação nas colônias

O trajeto da hospedaria portuária até o núcleo colonial definitivo constituía uma das fases mais desgastantes de toda a jornada migratória. Os poloneses seguiam de trem até o ponto final das ferrovias provinciais e continuavam o percurso em carroções abertos, tropas de mulas ou a pé por picadas abertas no meio da Mata Atlântica e das florestas de Araucária.

Núcleos pioneiros como a Colônia Dom Pedro II (fundada em 1871 em Curitiba), Santa Cândida, Abranches, Orleans, Murici, além de assentamentos no Rio Grande do Sul (como Dom Feliciano e Bento Gonçalves) e no interior de São Paulo, receberam contingentes substanciais. Ao chegarem à sede da colônia, as famílias eram abrigadas provisoriamente em barracões coletivos de madeira antes de receberem o número oficial do seu lote colonial rústico.

A demarcação dos lotes agrícolas, medindo em média de 10 a 25 hectares, exigia que os novos proprietários abrissem clareiras imediatas na mata nativa. A primeira tarefa prática era a construção de uma cabana temporária feita com troncos roliços de pinheiro-do-paraná ou palmito, coberta com folhas de palmeira ou tabuinhas lascadas (shingles), até que uma residência definitiva de alvenaria ou madeira beneficiada pudesse ser edificada no centro da propriedade.

Como encontrar os registros da viagem na pesquisa genealógica

Localizar os documentos que comprovam o itinerário do antepassado polonês exige a consulta cruzada a acervos digitais e arquivos públicos no Brasil e na Europa. A reconstituição da trajetória do imigrante fornece dados como o nome original com grafia polonesa correta, a data de entrada no país e o núcleo colonial de destino.

Para localizar essas fontes primárias, recomenda-se pesquisar nos seguintes repositórios documentais:

  • Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP): Guarda os livros de registro e matrículas da Hospedaria de Imigrantes do Brás digitalizados.
  • Arquivo Nacional (Rio de Janeiro): Mantém o Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), contendo as listas de desembarque de vapores dos portos do Rio de Janeiro e Santos.
  • Arquivo Público do Paraná (DEAP): Custodia os assentamentos de terras e listas de colonos das colônias agrícolas curitibanas e do interior paranaense.
  • Base de Dados Arolsen Archives e Arquivos Estatais da Polônia (Szukaj w Archiwach): Permitem buscar passaportes, registros de nascimento (akty urodzenia) e listas paroquiais de saída do território polonês.
  • FamilySearch: Reúne registros paroquiais de batismos e casamentos celebrados nas primeiras paróquias fundadas por sacerdotes poloneses no Brasil, como a Congregação de São Vicente de Paulo.

A análise atenta desses arquivos permite ao pesquisador familiar resgatar a memória dos antepassados, compreendendo as etapas reais de superação que integraram a história da imigração polonesa à formação da sociedade brasileira.

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